A HISTÓRIA DO AURÉLIO
por:- Edilson Fernandes
Num pequeno apartamento de uma imensa cidade vivia o jovem Aurélio.
Jovem simples, feio, mirrado e ligeiramente arqueado pelo peso da vida.
Desde pequeno muito tímido e observador, conseguia enxergar o que normalmente os jovens da sua idade não conseguiam ver.
Conseguia ver o milagre da vida em uma grávida, o mapa da sabedoria nas veias saltadas na mão de um trabalhador e a docilidade de um sorriso estampado no rosto de uma criança.
A sensibilidade de Aurélio possibilitava que ele percebesse coisas que ainda não tinha maturidade para compreender. Ou seja: absorvia as injustiças do mundo sem ter a armadura de proteção que os adultos utilizam para se esquivar da dor de estar neste tipo de mundo.
Um dia ele foi a um lançamento de um livro onde o autor estava doando os direitos autorais para a instituição beneficente que promovera este lançamento. Ao se aproximar do autor que dava um autógrafo a um casal ele ouviu o seguinte diálogo:
- “Muito louvável a sua atitude de doar os direitos autorais para esta instituição tão necessitada. Neste mundo de hoje as pessoas estão cada vez mais egoístas e pensam só nelas mesmas. Bom seria se as pessoas fizessem coisas assim como você está fazendo. O mundo de hoje é muito frio e a vida tem sido muito dura”.
O autor do livro olhou tranqüilamente para o casal que tecia o comentário elogioso e apenas fez uma pergunta?
“Quem além de nós mesmos, vivemos neste mundo? Quem além de nós mesmos forjou a maneira de se relacionar e de tratar as pessoas”.
Neste momento o casal ficou em absoluto silêncio e Aurélio apenas se distanciou e se pôs a pensar sobre aquilo.
É como se aquela frase tivesse aberto alguma porta em sua vida. Ele sempre se incomodava com as injustiças do mundo como se ele morasse em outro mundo. Ele via o egoísmo das pessoas como se ele mesmo não fosse egoísta. E neste instante ele sentia que algo ascendera dentro dele, uma vontade imensa de atuar sobre o mundo e não só de sofrer as conseqüências de estar vivendo nele.
A vontade de fazer alguma coisa brotava dentro do seu coração, porém ele precisava encontrar a forma de como isto poderia ser feito. Não sabia ao certo o que fazer, porém tinha como certo que os objetivos que nascem do espírito são muito fortes e que a maneira concreta de expressar isto no mundo viria com o tempo.
Em um primeiro momento buscou um grupo religioso que se encontravam praticamente todas as noites para fazer orações para os necessitados. Todos liam os pedidos que eram escritos em pequenos papéis e cada um continha um singelo pedido:
Deus eu preciso passar no vestibular, Deus eu preciso de um novo emprego, Deus um preciso de um namorado, Deus eu preciso que meu namorado queira casar comigo, Deus eu preciso que meu marido não me abandone... e assim por diante. Eram noites e noites ajoelhados, repetindo as mesmas orações que clamavam pela ajuda de Deus. Em dado momento Aurélio percebera que os pedidos eram tão egoístas quanto à atitude das pessoas que ele tanto repudiava. Cada um lá estava tentando comprar um terreno no céu. Eles vendiam a dor nos joelhos em troca da imagem de bons meninos. Os bilhetes com os pedidos estavam sempre focados nas necessidades mais mesquinhas e ele sentia que aquela vontade do espírito estava enfraquecida e que aquilo já não fazia nenhum sentido para ele.
Apesar de ele gostar das orações e lá no fundo existia um “quase prenúncio de paz”, as sementes não eram plantadas em um terreno que poderia dar frutos que alimentariam as bocas verdadeiramente necessitadas.
Então ele lembrou de uma frase que lera em um livro que já não mais lembrara o autor:
- “A paz não é um estado primitivo paradisíaco, nem uma forma de convivência regulada pelo acordo. A paz é algo que não conhecemos, que apenas buscamos e imaginamos. A paz é um ideal a ser alcançado”.
É isso! Disse a ele mesmo.
A semente que merece ser cultivada é a semente que possa dar frutos. E os frutos que merecem ser colhidos são os frutos que possam alimentar pessoas.
Neste momento Aurélio se sentiu fortalecido novamente e saiu pregando aos sete ventos as verdades que ele tinha descoberto, porém os jovens de sua idade não entendiam o que ele dizia, as pessoas do grupo de orações achavam que ele estava ficando muito esquisito. Aquele autor que ele ainda não lembrara o nome já dizia que “A sabedoria não pode ser transmitida. A sabedoria que um sábio tenta transmitir soa mais como loucura”.
Então Aurélio começou a fazer o seu vôo solitário. Começou a peregrinar por creches, asilos, hospitais, abrigos e ruas onde ele achava que poderia ser útil, porém ele se sentia sozinho e cansado. Começou a questionar a real utilidade do seu trabalho, os amigos do colégio já o apelidaram de Don Quixote e ele foi aos poucos abandonando os trabalhos que estava desenvolvendo.
Passados alguns meses se sentia mais solitário e agora com um vazio imenso dentro do peito. Estava em seu quarto ouvindo música, quando ouviu um trecho de uma música de um autor que não é da sua época, que dizia o seguinte:
- Sonho que se sonha só. É só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.
A música parecia um mantra e ficou repetindo isto várias vezes.
- Sonho que se sonha só. É só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.
Quando ele desligou o som, a música continuava a tocar, porém agora do lado de dentro. Parecia que ele tinha engolido um disco riscado, parecia um castigo; ou seria um chamado?
setembro/2009.
Vicente Chagas
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